enviado 18-07-2003 16:43
Caro Prof. Humberto,Em nossas condições, o pasto é a principal fonte de nutrientes na nutrição de ruminantes. Além da proteína e energia, as forragens provêm minerais, vitaminas e fibra, necessária à dieta para promover a mastigação, ruminação, ensalivação, tamponamento e estabilidade fermentativa no rúmen. Na formulação de dietas, a qualidade e a quantidade de forragem são fatores primordiais a serem considerados no atendimento das exigências nutricionais.
Os carboidratos são os principais constituintes das plantas forrageiras, correspondendo de 50 a 80% da MS das forrageiras e cereais. As características nutritivas dos carboidratos das forrageiras dependem dos açúcares que os compõem, das ligações entre eles estabelecidas e de outros fatores de natureza físico-química. Assim, os carboidratos das plantas podem ser agrupados em duas grandes categorias: Estruturais e não estruturais.
Os carboidratos não estruturais incluem os carboidratos encontrados no conteúdo celular, como glicose e frutose e os carboidratos de reserva das plantas, como o amido, a sacarose e as frutosanas. Os carboidratos estruturais incluem aqueles encontrados normalmente constituindo a parede celular, representados principalmente pela pectina, hemicelulose e celulose.
A natureza e concentração dos carboidratos estruturais da parede celular são os principais determinantes da qualidade dos alimentos volumosos, especialmente de forragens. A parede celular pode constituir de 30 a 80 % da MS da planta forrageira, onde se concentram os carboidratos como a celulose, a hemicelulose e a pectina. Além disto, podem constituir a parede celular componentes químicos de natureza diversa dos carboidratos, tais como tanino, nitrogênio, lignina, sílica e outros.
A lignina constitui um polímero fenólico que se associa aos carboidratos estruturais, celulose e hemicelulose, durante o processo de formação da parede celular, alterando significativamente a digestibilidade destes carboidratos. Assim a digestibilidade da PC está diretamente associada ao seu conteúdo de lignina, dessa forma como o Sr. comentou a celulose pode ter grande variação em seu valor de digestibilidade, muito provavelmente relacionado ao conteudo de lignina na PC.
As forrageiras de clima tropical, em relação às espécies de clima temperado, são caracterizadas por apresentarem baixos teores de carboidratos solúveis e pela elevada proporção de parede celular, conseqüentemente, de carboidratos estruturais. O elevado conteúdo de parede celular das gramíneas tropicais está associado a aspectos de natureza anatômica das espécies em razão da alta proporção de tecido vascular característico das plantas C4, que apresentam maior eficiência fotossintética, maior crescimento e, portanto necessitam de maior suporte estrutural; além disso, no ecossistema tropical dada a grande biodiversidade, os vegetais têm necessidade de desenvolver mecanismos de defesas ao ataque de predadores. Muitos pesquisadores, influenciados pelos resultados de pesquisas realizadas em países de clima temperado tendem a crucificar nossas gramíneas tropicais pelo seu alto conteúdo de PC. Porém é graças ao seu alto conteúdo de PC que conseguimos altos índices de produtividade (MS/ha), portanto reduzir PC significaria em última análise reduzir o crescimento vegetal.
Com o avançar da maturidade, verificam-se aumentos nos teores de carboidratos estruturais e redução nos carboidratos de reserva, o que depende, em grande parte, das proporções de caule e folhas. Isso se reflete na digestibilidade da forragem, que declina de maneira especialmente mais drástica para as gramíneas do que para as leguminosas. Justificando atenção especial ao manejo de gramíneas tropicais no sentido de disponibilizar aos animais material mais novo e de melhor qualidade.
Assim, deve ser foco dos estudos em nutrição de ruminantes delinear estratégias que visem a máxima utilização da fração potencialmente digestível da fibra, uma vez que a fração indisponível não contribuirá com nutrientes para o animal, devendo, portanto ser eliminada o mais rápido possível, retornando assim ao solo para ser incorporada e posteriormente degradada em condição aeróbica, o suprimento de carboidratos rapidamente fermentecíveis (ex. suplementação a pasto) contribui para um aumento da taxa de passagem de sólidos no rúmen, favorecendo a saída desta fração indegradável, minimizando os efeitos de enchimento causados pela fibra.
A qualidade de leguminosas e gramíneas pode ser avaliada pelo tipo e quantidade de material fibroso na planta, caracterizado pelas frações de carboidratos presentes na FDN e FDA. Por ser inversamente relacionada ao conteúdo energético da dieta e diretamente relacionada ao fator enchimento, a FDN tem sido associada ao consumo de matéria seca de ruminantes.
Há de se frisar, porém, que em condições tropicais fatores outros, devem ser levados em consideração, um deles é a qualidade desta FDN, caracterizada pela proporção de FDNi. Outro fator que merece destaque é o entendimento da "lei dos mínimos" em que o nutriente limitante estará nivelando o consumo/desempenho animal. Em condições tropicais o nitrogênio parece ser o maior limitante ao desempenho animal.
Diversos modelos mecanicistas têm sido sugeridos na tentativa de se explicar à cinética ruminal da fibra e suas implicações no consumo de matéria seca. Porém pouco se sabe sobre a regulação do consumo em condição de pastejo, principalmente em se tratando de forrageiras tropicais e animais zebuínos. O clássico valor de 1,2%do PV em FDN parece não explicar bem a cinética ruminal em nossas condições, a literatura relata valores de CMS de até 1,8% do PV em FDN. Dessa forma os modelos desenvolvidos com animais e alimentos de climas temperados parecem não serem verdades absolutas às nossas condições.
Quanto a composição fecal, a maior concentração de nutrientes que o Sr. relatou nas fezes de bubalinos, deve estar refletindo uma menor digestibilidade do alimento o que pode ser vantajoso para a reciclagem de nutrientes, mas certamente não será vantajoso ao animal do ponto de vista nutricional. Além disso a comparação das fezes deve ser feita para dietas e níveis de consumo iguais uma vez que o tipo de alimento e a quantidade ingerida acarretarão valores diferentes de nutrientes nas fezes. Dessa forma, a simples comparação da composição das fezes em diferentes condições não poderá ser utilizada como parâmetro acerca da capacidade digestiva dos animais.
A tão falada maior capacidade digestiva da fibra dos bubalinos em comparação aos bovinos parece ser verdadeira somente em condições de dietas de muito baixa qualidade o que não me parece vantagem sob a ótica de uma produção animal eficiente onde o manejo das pastagens e o manejo nutricional visam fornecer, de forma econômica, a maior quantidade possível de nutrientes digestíveis no sentido de atender as exigências nutricionais dos animais.
Um abraço,
Antonio