enviado 19-03-2005 08:31
Caro Ariel,Em regiões tropicais com estações basicamente divididas em duas, uma seca e outra chuvosa, a estratégia de suplementar o gado no período frio e seco, quando as forrageiras tropicais apresentam em maior ou menor grau uma diminuição de sua produção de MS ( sazonalidade ), é imprescindível para o sucesso da pecuária, quer seja de leite ou de corte.
As estratégias de suplementação são variadas e de efetividade e custo/beneficio também diferentes.
Uma das mais fáceis e baratas é a de diferimento de pastagem, quando em meados de fevereiro se veda um pasto ( preferencialmente de decumbens, ruziziense, brizanta, cynodons e outras estoloniferas - exceto a humidícola que tem valor nutricional muito baixo - ), de forma a permitir uma reserva de MS de material fibroso ( capim maduro ), erroneamente chamado "feno em pé", para que os animais possam consumi-lo a partir de junho/julho.
Pode-se usar também silagens dos mais variados tipos, que seriam em valores decrescentes de qualidade as de milho ( maiz ), sorgo, capim e cana; isso a um custo mais elevado. Há também a possibilidade de se suplementar com grãos e/ou farelos energético/proteicos, mas o custo seria inviável na maioria das situações.
Resta a tecnologia de suplementação de cana mais uréia, relativamente simples e de um bom custo/beneficio.
A cana de açucar é uma gramínea forrageira que apresenta certas caracteristicas que a diferem de todas as outras gramíneas: produz alta quantidade de MS, tem altos teores de CNEs ( carboidratos não estruturais ), no caso a sacarose, o seu colmo ( talo ) tem valor nutricional superior à suas folhas, melhora o valor nutricional com o passar do tempo, mantem a qualidade por longo período de tempo, tem baixos teores de fibra ( apesar de ser uma das fibras de menor digestibilidade dentre as gramíneas ), tem alto valor energético e baixo valor protéico ( 3 a 4 % ), e concentra sua produção justamente no período seco e frio do ano, quando as outras forrageiras tropicais apresentam um declinio na produção.
O maior problema de uso da cana na alimentação animal reside exatamente nos seus baixos teores de proteína, que se usada isoladamente, levaria a um desbalanço nutricional na dieta, com complicações metabólicas e acentuada perda de peso.
A sua utilização em associação com NNP ( nitrogênio não protéico ) à base de uréia ou amiréia - mix de uréia com uma fonte de amido extrusado/gelatinizado, tornado a liberação de amônia no rúmem supostamente mais lenta -, veio resolver seu déficite de "proteína".
Deve ser usada a uréia pecuária, que nada mais é que a uréia acrescida de uma fonte de enxôfre. No caso, usa-se 9 partes de uréia mais 1 parte de sulfato de amônio para se obter a "uréia pecuária".
A utilização da uréia no volumoso de cana, se dá no modelo clássico de 1%, ou seja, para cada 100 kg de cana fresca picada se acrescenta 1 kg de uréia, preferencialmente diluída em uns 10 litros de água, de forma a poder se misturar de forma uniforme na cana.
Este percentual não deve ser utilizado imediatamente, devendo os animais passarem por um período de adaptação à uréia, iniciando-se na primeira semana com 0,25%, segunda semana com 0,5%, terceira semana com 0,75% e finalmente 1% na quarta semana ( um produtor mais experiente e com controle técnico, poderá chegar até níveis de 1,5% com muita segurança, sem risco de intoxicação para os animais ).
Em média, um animal de 450 kg de peso vivo ( 01 UA ) consome cerca de de 20 a 24 kg de cana picada com uréia por dia, preferencialmente dividido em duas vezes ao dia.
Um motivo de grande debate entre técnicos é quanto ao tamanho da partícula da cana após picada; alguns recomendam que se faça uma verdadeira "moagem/pulverização" da cana, em particulas menores que 0,5 cm, o que permitiria que esta cana chegasse ao rúmem e tivesse apenas a sacarose aproveitada, já que o orifício de escape ruminal é de cerca de 0,5cm, fazendo com que esta fibra de pequeno diâmetro permaneça por muito pouco tempo no rúmem, não sendo "quebrada" pelos microorganismos rumináis, aumentando com isso a taxa de passagem, e teoricamente, a ingestão de volumoso. Eu, pessoalmente, por experiência própria, prefiro o tamanho de particula em torno de 0,8 a no máximo 1,2 cm, que permite uma degradação desta fibra, aproveitando-se a energia da mesma, e sem causar "embuchamento" ou diminuição do consumo de volumoso pelo animal; além do que, esta fibra melhorará o ambiente ruminal.
Cana com uréia NÃO deve ser dada a bezerros muito novos, pois seu trato digestivo funciona como se fossem monogástricos, e os microorganismos ruminais ( basicamente as bactérias ) que são quem se beneficiam do NNP transformando-o em proteina microbiana de alto valor biológico, ainda não colonizaram devidamente o rúmem, e portanto poderia haver uma intoxicação grave nestes animais pelo excesso de uréia.
A propósito, quando se suspeitar de que um animal esteja intoxicado por uréia, deve ser fornecido ao mesmo ( 01 UA - 450 kg de peso ) uma beberragem de 3 a 5 litros de vinagre ( ácido acético ) para neutralizar o excesso de amônia.
Talvez uma prática interessante, seja acrescentar nesta mistura de cana com uréia uma fonte de carboidrato de degradação mais lenta ( já que a sacarose é de degradação extremamente rápida no rúmem, em que pese a uréia também se degradar rapidamente em amônia, mas não tão rápido quanto a sacarose, o que poderia levar a um desbalanço energia/NNP, diminuindo a ação e produção dos microorganismos ruminais ); esta fonte poderia ser o amido na forma de milho/maiz ou sorgo moídos grosseiramente, ou raspa de mandioca, que apresenta uma degradação mais compatível com a uréia ) e talvez um pouquinho de proteina verdadeira, como farelo de soja, caroço de algodão, etc.
Há relatos de ganho de peso por animais suplementados da ordem de 300g/dia e produções de leite da ordem de 10 a 12 kg/animal/dia.
Espero ter contribuido de alguma forma.
Cordialmente,
Helio Cabral Jr